quinta-feira, 24 de maio de 2012

submerso


eu queria ouvir uma música pequena
enquanto permaneço submerso

e os olhos escorregadios
que gastei
treze vezes

vamos correr ?

sábado, 19 de maio de 2012

duas variações de sombra de janela

dois variações de sombra de janela
Parte das investigações sobre a forma na oficina de Linguagem Visual. Mais investigações em:
 http://www.maonifestacao.blogspot.com.br

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[anotações #1]
Sempre observei essa sombra que a janela cria na parede do quarto, mas fotografá-la, potencializá-la no significado, o qual até agora não sei, pelo menos formalmente. Sei de um sentido, das condições pelas quais me fizeram  observar, quando apaga-se a luz de noite, a iluminação externa, a do céu, incide suave na parede formando essa forma de dentro da janela que não é janela mas tem dois lados...


sexta-feira, 23 de março de 2012

deflagrado

quando surge em minha face:
a nuvem espiritual do medo, 
o ruído das montanhas,
o corpo cru 


desmontando o estado,
o presente ruído
desobedece 

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sobre a forma


Traçar dois pontos de um percurso e dizer sobre o começo e o fim é uma questão formal (linguagem). Se esse percurso estiver em uma folha em branco e enxergamos ali, além do formalismo gráfico, uma tendência espiritual. Carregada ou não de signos FICADOS, ele ganha propriedade e torna-se uma MATRIZ FORMAL e INFORMAL, de uma COMUNICAÇÃO/MENSAGEM TENTACULAR, dizendo algo na FORMA-LIDADE e outras na IN-FOR-MALIDADE. Na infinita cadeia de significados coletivos e associativos, a forma pode ser vista como uma desconstrução,  uma coisa que não pode ser delineada em seu “espaço original” (pensamento/imaginação), sem perspectiva, luz ou matéria. Um lugar de constante espiritual e energia, que não precisaria do FORMA-LISMO gráfico, mas poderia ser acessado através da próprio como expressão e subjetividade do artista/feitor. Do que ela é, somente sabemos o visual, o que podemos pegar e correr com os olhos... A forma seria a casa do signo ? um abrigo ? Uma estrutura particular, um MEIO, capaz de comportar inúmeras estruturas mesmo que de passagem? Uma memória COM-FORMADA ?

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referência bibliográfica: Do Espiritual na Arte- Wassily Kandinsky 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Caminhando


 “Caminhando, pensa-se: seria bom tornar-se salteador, roubar os ávidos de dinheiro, os ricos, e distribuir tudo entre os pobres; que todos fiquem nutridos, alegres, não invejem e não injuriem uns aos outros, como cães raivosos. Seria bom igualmente chegar até o Deus da vovó, até a Mãe de Deus, e dizer a eles toda a verdade sobre como as pessoas vivem mal, de que modo ruim, ofensivo, enterram uns aos outros na areia ordinária. E, em geral, quanta coisa existe sobre a terra, que ofende e que é absolutamente desnecessário. Se a Mãe de Deus acreditar em mim, que me dê inteligência para melhorar tudo. Que os homens me ouçam e confiem em mim: bem que eu procuraria um modo melhor de vida ! Não faz mal que eu seja criança: Cristo tinha apenas um ano mais e já era ouvido pelos sábios...”
[Górki, Maksim. Ganhando meu pão. São Paulo: Cosac Naify, 2007 - p.71]

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"Ganhando meu pão" é o primeiro livro que leio do Górki, e a impossibilidade de dizer/escrever o que já foi/está escrito, por exemplo, nesse trecho selecionado da página setenta e um me chama. Pensar com que atrevimento eu pretendo também escrever, narrar uma história crua da minha infância ou inventa-lá de cabeça. Gerar impossibilidade e prazer. Li esse trecho de Gorki de peito aberto. Sim, feito o clichê de viver outras vidas ao ler. Sim, Sim, Sim ! Feito a vida mesmo sem o clichê também, essa agora que acontece enquanto escrevo aqui e a que surgirá amanhã. 

Essa pequena revolução que é escrever, furar a vida de minúsculos pontos pretos de linguagem, desorganizando também o que já foi pregado. Ser, ser, ser. Responsabilizar-se como sugeriu Schopenhauer. Essa outra vida também é feita de sangue não vê ?


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[trilha]

domingo, 1 de janeiro de 2012

trechos












"Acho com alegria que ainda não chegou a hora de estrela de cinema de Macabéa morrer. Pelo menos ainda não consigo adivinhar se lhe acontece o homem louro e estrangeiro. Rezem por ela e que todos interrompam o que estão fazendo para soprar-lhe vida, pois Macabéa está por enquanto solta no acaso como a porta balançando ao vento no infinito. Eu poderia resolver pela caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quer o pior:  a vida. Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago."  (Clarice Linspector. A hora da Estrela ,1977, p.83)

"A vida das mulheres é dura, em verdade. De algumas mulheres. Lembro que minha mamãe chegou aos setenta e poucos anos. Trabalhava todos os dias, chovesse ou fizesse sol; nunca ficou doente desde que o último filho nasceu até que um dia ela meio que olhou à sua volta e foi pegar aquela camisola com detalhes de renda que tinha fazi 45 anos e nunca havia tirado do baú e a vestiu e se deitou na cama e puxou as cobertas e fechou os olhos. "Agora vocês todos devem cuidar de seu pai da melhor maneira que puderem", disse ela."Estou cansada."  (William Faulkner. Enquando agonizo,1930, p.29-30)

"226.
Com que luxúria [] e transcendente eu, às vezes, passeando de noite nas ruas da cidade e fitando, de dentro da alma, as linhas dos edifícios, as diferenças das contruções, as minuciosidade da sua arquitetura, a luz em algumas janelas, os vasos com plantas fazendo irregularidades nas sacadas - contemplando tudo isto, dizia, com que gozo de intuição me subia aos lábios da consciência este grito de redenção: mas nada disto é real !" (Fernando Pessoa. Livro do Desassosego, p.231)

"Dançava-se, agora, sob os toldos do jardim; velhos a puxar moças novas em círculos incessantes e desgraciosos; pares, que dançavam melhor, a agar-se tortuosamente, conforme a moda, conservando-se tortuosamente, conforme a moda, conservando-se sempre pelos cantos - e um grande número de moças que dançavam, individualisticamente, sozinhas, ou aliviavam a orquestra, por um momento, do fardo do banjo ou dos instrumentos de percussão. Ali pela meia-noite, a hilaridade aumentou. Famoso tenor cantara em italiano, e uma conhecida contralto cantara música de jazz e, entre um número e outro, algumas pessoas exibiam suas habilidades coreográficas por todo o jardim, enquanto súbitas e alegres explosões de riso se erguiam em direção do céu estival. Um par de gêmeas, artistas de teatro, que não eram outras senão as jovens de amarelo, exibiu-se em costumes de bebê - e o champanha foi servido em taças maiores do que lavabos de mesa. A lua erguera-se mais e, flutuando sobre o Estreito, havia um triângulo de escamas de prata, a tremer ligeiramente ao som duro e metálico dos  banjos sobre o gramado." (F.Scott Fitzgerald. O Grande Gatsby - 1925 - p.60)

"Como é possível que tudo possa ser feito e desfeito, criado e destruído, mas que o próprio Z estivesse ali sentado com pressentimentos de ter lhe faltado a criação ? Mas mesmo isso estava muito distante e Z adormeceu junto com seu cansaço e um pequeno sonho quase chegou até ele: um carneirinho felpudo estava deitado na relva e Z sonhou ser a sua patinha. Quando acordou, Z não reparou em nada e achou que ele havia sonhado um sonho de uma outra pessoa."  (Juliano Pessanha. Sabedoria do Nunca, 1999, p.29 )

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

agente profissão

A preocupação das universidades em deixar o aluno mais próximo do que é o mercado de trabalho é evidente, mas também deveriam preocupar-se em criar faculdades de transformação, independente da profissão escolhida pelo estudante, assim o futuro profissional estaria capaz de entender a "tradição" da profissão escolhida e ser um agente de transformação (não sei se isso seria é uma ideia romântica, de qualquer forma prefiro essa opção do que sentir-se preso a um formato).

Conciliar trabalho com projeto de vida, ou melhor, com a vida fora do trabalho já é uma característica dos jovens contemporâneos, que não veem mais sentido em ter uma profissão onde a satisfação é apenas profissional e corporativa. Também não sei realmente de onde vem essas características, porque no final das contas as empresas cobram esse tipo de postura, e para não generalizar estou falando quando essa manifestação seria, se possível, espontânea.

Hoje temos grandes  possibilidades de escolhas e seguimentos profissionais, mas sobretudo não precisamos ser reféns das mesmas, ou seja, as vezes a cartilha não funciona.

as vezes o velho está maquiado de novo.

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ps: alguns links/coisas/associações:





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A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la. 


Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.





João Cabral de Melo Neto

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